Júlia era uma católica típica: Rezava todas as noites antes de dormir, ia à igreja com a família todos os domingos, não comia carne bovina nas sextas-feiras santas. Era extremamente preconceituosa, sempre julgava os outros, egoísta e invejosa.
Dissimulada, conseguia sempre enganar todos à sua volta. Manipulava os fatos como um jogador de xadrez manipulava seus peões. Amigos, familiares, namorados, vizinhos, ninguém escapava de suas mentiras e joguinhos.
Quando sua mãe ficou grávida, ela subitamente se deu conta de que sua menstruação não viera por três meses. Saiu correndo pela casa, trancou-se em seu quarto para que ninguém visse que sua expressão havia mudado, que agora seu rosto era uma mistura de ódio e humilhação. A verdade lhe batia a cabeça como um martelo: Estava grávida também. Ao deitar-se à noite, conseguia ouvir o fruto do demônio consumindo suas forças, crescendo e cada vez mais perto de desmascará-la.
Ninguém podia saber de seu erro, de uma criança gerada pela luxúria, por algo tão abominável e errôneo em sua mente. Nos dias que se seguiram, convencera seus pais de que iria passar o final de semana na casa de uma amiga, e foi para uma clínica clandestina, onde abortou a criança.
Cada dia que se passava mais a infecção se alastrava, mais a cor desaparecia de sua face. Sentia Sua ira em ter acabado com a vida de uma pessoa inocente, enquanto ela não tinha condições de se defender. Quando percebeu o quanto era fraca e covarde, lágrimas começaram a rolar em sua face, mas no fundo ela sabia que não haveria escapatória para seu pecado.
Internada na UTI semanas depois, a septicemia já era um quadro consolidado. A sua inocência manchada como os seus lençóis, que agora eram de uma tonalidade vermelha doentia. O suor frio grudava o cabelo em sua testa, fazendo o pálido de sua pele mais doentio. Em seus últimos suspiros, pediu perdão uma última vez, e sua respiração cessou. A verdade já não era um mistério para seus amigos e familiares, agora todos sabiam que Júlia era vítima de sua própria hipocrisia.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
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Ow, Marco! Gostei do seu estilo. =]
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