sábado, 8 de maio de 2010

Óbito

Não se lembrava mais quanto tempo estava naquela escuridão. Conseguia sentir suas costelas fraturadas perfurando seus pulmões, sentia o gosto de sangue em sua boca, seus ombros deslocados, seus hematomas. Marcas da violenta tortura que sofrera antes de ser enterrado.

Suas mãos latejavam com as farpas, resultado das tentativas inúteis de se libertar. Não conseguia tirar seu pensamento de que pouco acima dele o ar corria livre pelos gramados, o oxigênio tão importante, e que as pessoas simplesmente ignoravam todos os dias, vivendo suas vidas atarefadas. Começava a suar, o ar estava extremamente carregado com o vapor de sua respiração. Quanto mais faltaria até a verdade incontestável?

Nunca pensara em sua vida terminando naquele estado, sempre se via em idade avançada, rodeado de netos, em sua casa, confortável, feliz. Todos seus planos para o futuro, agora algo inalcançável. Mais algo a ser devorado pelos vermes, afinal.

Tudo deu errado, porém, quando sua empresa começara a ir mal. Contas atrás de contas chegavam, eram como marteladas em sua mente. As dívidas começavam a se acumular, e sabia que não demoraria muito até as portas fecharem e ele se tornar apenas outro empresário mal sucedido. Situações desesperadas exigem medidas desesperadas, pensava deste modo, e foi exatamente como agiu. Pegou dinheiro emprestado com pessoas perigosas.

Os meses que se seguiram foram de prosperidade, a empresa saíra do vermelho, finalmente começava a dar frutos. Por mais que a empresa estivesse bem, os lucros mal davam para cobrir os juros mensais. Eles ficaram mais agressivos, passaram a ir em seu escritório todos os dias, ameaçá-lo.

Não adiantava mais revolver aquelas memórias, pensou ele. Nada do que pensasse ou sentisse poderia tirá-lo daquela situação. Já se sentia fraco com a falta de ar. A escuridão não amenizava a sua sensação de confinamento. O que mais lhe incomodava é que ninguém sentiria sua falta, ele seria apenas mais um corpo esquecido em meio a todos os outros indigentes enterrados naquela parte do cemitério.

Havia cortado relações com os pais há muito tempo, também não iriam se surpreender de o filho não telefonar, não mandar uma carta, um sinal de vida. Não tinha esposa ou namorada, a sua ex o odiava, exigiam demais do seu tempo, do seu dinheiro. Estava ocupado demais com seu emprego para se preocupar com outra pessoa. Se pelo menos alguém sentisse sua falta. A esperança se extinguia, como as areias de uma ampulheta.

Passaram-se dias, meses, anos. O que era madeira apodreceu, expondo o corpo ao tempo. A carne se fora, ficara apenas os ossos do que um dia fora uma pessoa com sonhos, esperanças. Mas ele ainda olhava para cima, esperando que algum milagre o salvasse, que algúem enfim se lembrasse dele, que alguém o procurasse. O que eram olhos se tornaram apenas órbitas preenchidas de terra, mas ainda olhavam para cima, aguardando o milagre que nunca chegou.



Bem, é isso. Nem teve humor nesse...Até a próxima :*

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