quinta-feira, 31 de março de 2011

Wind

Sempre fora chamado de pessoa calma, centrada, tímida, quieta. Não se lembrava se sequer um dia havia gritado, se exaltado, ou mesmo tentado sobressair-se em uma conversa.


Não chamava a atenção, era facilmente esquecido em ocasiões importantes ou datas comemorativas, até sua família esquecia seu nome, e às vezes podia passar dias sem se comunicar que ninguém se preocupava em perguntar-lhe algo, mesmo algo tão trivial como 'onde você quer almoçar hoje?'.


Precisava falar duas, três vezes para que as pessoas à sua volta conseguissem entender o que queria expressar. E assim sua voz foi ficando mais baixa, até que ela enfim se confundia com os ruídos do vento. As pessoas passavam, e não davam atenção à sua pessoa. Conversavam como se ele não estivesse por perto, namoravam como se ele não estivesse por perto, agiam como se ele não estivesse por perto.


Por fim, assim como o resto do mundo, também desistira de si próprio, não consegui lembrar nem de sua voz, nem de suas feições, sua imagem no espelho sumira. Sabia que estava ali, mas como coisas materiais tão sólidas como seu próprio corpo perdendo suas cores e formas, outras coisas não tão sólidas se tornavam cada vez mais presentes, como a solidão e o desespero.


Ainda está parado no mesmo local em que todos o esqueceram, mas agora não há nada lá.

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